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Tangas Lésbicas

lésbicas de tanga na tanga - em busca do seu passo doble perfeito - desfiando as linhas que cosem as tangas - que nos devolvem envolvem - pingas que tingem a linha da tanga - todas as tangas são iguais - mas estas são as melhores - tangas lésbicas

Tangas Lésbicas

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de tanguinha...

- Hoje acordei com saudades suas...

-  A sério?

- Muito a sério.

- É por isso que ainda não tenho aqui o meu tabuleiro do café com torradas, biscoitos e sumo?

- Não...

- Não? Mas não vejo aqui nada...

- Isso é porque o pequeno-almoço hoje é diferente.

- Sim? Como?

- É surpresa.

- Hum... Gosto de surpresas. Estou à espera...

- Deixe-me pôr-lhe isto primeiro.

- Uma venda? Não sei se acho boa ideia...

- Tem de confiar em mim. Sim ou não?

- Bem... Sim!

- Óptimo. Agora vou ajudá-la, está bem? Não quero que vá contra os móveis. Apoie-se em mim.

- Para onde me leva?

- Não seja impaciente. Disse-me que confiava em mim.

- Pois foi.

- Pronto, já cá estamos.

- Posso tirar a venda?

- Não, não. Hoje está a ter uma experiência sensorial sem usar os olhos. Com eles vendados vai ter de sentir ainda mais tudo o que se passa à sua volta. Quer continuar?

- Claro, amor. Mas... o que me está a fazer?

- Estou a despi-la, querida. Não é novidade para si, mas hoje está a ser diferente, não é?

- Hum... Muito agradável. Pode continuar...

- Agora descontraia-se.

- Estou muito descontraída.

- Óptimo.

- O que é isso?

- Óleo perfumado. Gosta?

- Sabe bem, assim espalhado pelas suas mãos... Já lhe disse que tem umas mãos óptimas?

- Sim, amor. São só para seu uso exclusivo.

- É sempre bom ouvir isso, querida. Continue que estou a adorar...

- Não se preocupe. Temos o dia todo e eu ainda agora comecei.

- Ainda está com saudades minhas?

- Isso é um estado que não me passa, amor.

- Tenho reparado nisso.

- Só precisamos de nos lembrar todos os dias disso, para não nos distrairmos e não perdemos a noção do quanto gostamos.

- Concordo, amor. A menina nunca mo deixa esquecer.

- Dou o meu melhor e sinto que faz o mesmo.

- Mima-me demais... E agora, que me vai fazer?

- Chegue-se para aqui. Vou ajudá-la a levantar a perna, assim. Baixe agora.

- Hum... Banho quente... Hum...

- Ajudo-a a sentar-se. Não quero que escorregue.

- Está bom, amor. Ai que delícia... Não se junta a mim?

- Claro amor. É já. Só falta uma coisinha... Volto já e não quero que tire a venda.

- Prometido é devido, não se preocupe.

- Já está. Foi rápido, como vê.

- Pois foi. Entre, ande.

- Pronto. Dê-me a sua mão.

- O que é isto? Café? Que cheirinho...

- Tem o tabuleiro à sua frente, por isso, tenha cuidado. Vou-lhe passando tudo, não se preocupe.

- Que maravilha... Pequeno-almoço na água, servido por si. O que é isto?

- Um scone com manteiga. Que tal lhe parece?

- Delicioso.

- Experimente misturar com isto.

- Morango? Hum... Que delícia, amor.

- Ainda bem que gosta.

- Melhor, só a menina, é um facto.

- Mima-me com esses elogios todos.

- E a menina com estas surpresas maravilhosas.

- Quer um bocadinho de sumo?

- Quero tudo a que tenho direito. E ainda mais uma coisinha.

- Diga. Hoje é o dia das suas vontades.

- Ai é? Posso pedir, então?

- Pode. Estou por sua conta.

- Óptimo. Quer ser a minha sobremesa?

- Ai...

 

as verdadeiras tangas

- A menina lembra-se da R.?

- A que está lá mais para norte?

- Essa mesma. Sabe que ela foi a Portugal de férias?

- A menina disse-me, sim.

- Não imagina o que lhe aconteceu...

- Pois não. Mas a menina vai contar-mo, não vai?

- Vou, vou. Ou não quer ouvir?

- Claro que quero. Quando me propus viver consigo devo ter assinado um contrato qualquer com umas letrinhas pequeninas a dizer que tinha de ouvir as suas histórias todas, ou arriscar-me a uma quebra contratual grave com contornos de crise conjugal de nível 8.5 na escala de um Ritcher qualquer das relações...

- Ai, deixe-se de brincadeiras. Quer ouvir a historia da R. ou não?

- Claro que quero. Diga lá.

- Lembra-se da namorada espanhola que ela teve?

- A que morreu?

- Essa mesmo. Meteu-se-lhe na cabeça ir até à aldeia dela, perto de San Sebastian, para ir visitar a campa dela ao cemitério.

- É um pouco tétrico para o meu gosto, mas há pessoas que encontram nisso algum sentido. E depois?

- Depois, foi mesmo e não encontrou campa nenhuma com o nome da outra.

- Enganou-se no cemitério? Na aldeia?

- Não. Andou por lá a indagar e ia tendo um baque surdo com o que descobriu.

- E o que foi?

- Uma das vizinhas da família da rapariga acabou por lhe dizer que ela não tinha morrido e que estava internada num hospital próximo.

- A sério?!?

- Seríssimo. Ia-lhe dando uma coisinha má.

- Calculo... E que fez ela?

- Meteu-se no carro e foi ao tal hospital. Deu a volta à enfermeira que lá estava e conseguiu que a deixasse fazer-lhe uma visita.

- E era mesmo ela? A que morreu?...

- Era. Tetraplégica, ou lá o que é. Diz que a reconheceu pelos olhos, porque está completamente diferente, depois destes anos todos. E que percebeu que a outra também a reconheceu.

- Que história...

- É verdade. Esteve a falar com ela. A outra não lhe respondia, mas diz que lhe vieram as lágrimas aos olhos e tudo. Pediu-lhe desculpa, disse-que que não sabia, que lhe tinham dito que ela tinha morrido.

- Parece uma história de telenovela...

- Pois é. Mas é verdade. Disse-lhe que continuava a gostar muito dela e que tudo teria sido muito diferente se soubesse que ela estava viva. Que continuava a ser o grande amor da vida dela, mas que agora tinha refeito a vida e que provavelmente não voltaria lá. Que se lembraria sempre dela e essas coisas.

- Que coisa... Que história. A família da outra enganou-a durante estes anos todos...

- Pois foi. Foi a forma mais simples de se livrarem da 'namorada' incómoda. E ela nunca pôs isso em questão, depois do acidente de carro que tiveram. É terrível, não é?

- É realmente terrível o que as famílias continuam a poder fazer nestes casos. Mesmo que, na altura, ela se tivesse apercebido de que a namorada estava viva, o mais provável é que a tivessem impedido também de estar com ela.

- Teria sido muito duro também, mas pelo menos ela saberia a verdade e poderia ter escolhido lutar ou não pela relação delas.

- A verdade é sempre melhor, mesmo quando não conseguimos o que queremos. Pelo menos, temos hipóteses mais justas.

- São histórias destas que me apetece contar quando as pessoas dizem que não vão às paradas e às marchas do orgulho porque não estão para palhaçadas. A verdade é que são essas ditas 'palhaçadas' que nos permitem as poucas vitórias legais que já alcançámos.

- É verdade e nunca é demais lembrar isso. Agora chegue-se para cá, que essa história pôs-me o cabelo em pé.

- A mim também.

 

(Esta história é real e não apenas uma das muitas ficções narradas neste blogue. Passou-se na última semana, entre Lisboa e San Sebastian.)

 

empanadas?

- A menina acha que isto está empanado?

- Empanado? Tipo carrinha hippy que não arranca?

- Está a chamar hippy, velho e ampanado ao Tangas?

- A menina é que comecou...

- Não desconverse, caramba. Estou aqui a tentar chegar a uma conclusão.

- E que conclusão é essa, posso saber? É que a menina funciona em piloto automático, assumindo que o que diz é óbvio para toda a gente.

- Pronto, eu reformulo: acha que o Tangas está empanado?

- Não, não acho. Acho que a Sammy está a picá-la, para ver se a menina deixa de estar para aí entretida a ver as vistas e se nos conta das suas de novo.

- As vistas... Ai, sabe lá... Isto aqui na terra das bifas ainda é mais fechado que na terrinha...

- Como assim?

- Junte homofobia à timidez doentia das bifas e vai ver o resultado da equação.

- A sério? Não fazia ideia...

- É verdade. A menina não imagina a trabalheira que dá ser out aqui também.

- É para aprendermos a não assumir permanentemente que a galinha da vizinha é melhor do que a nossa.

- Isso é bem verdade.

- Então podemos contar com crónicas suas para breve?

- Claro, claro. Entretanto, não me quer fazer a menina um favorzinho?

- Diga.

- Chegue-se aqui para o meu lado, que começa a fazer um frio dos diabos nesta terra...

- Hum...

redoma hetero

- A menina já se deu ao trabalho de ler isto?

- O quê?

- Estas estatísticas sobre as primas. São assustadoras...

- Deixe-me ver.

- Tome lá. Até estou arrepiada.

- "Cerca de 90 por cento das lésbicas e gays crescem em lares hetero." É isto?

- Exactamente. Não é espantoso?

- "Com consequências devastadoras sobre o seu desenvolvimento psicológico e futura capacidade para acreditarem em si mesmos enquanto indivíduos de pleno direito, afectando globalmente a sua forma de interagir com os outros e provocando mesmo uma forma de stress pós-traumático cujas consequências ainda estão por avaliar."

- Veja lá... Inacreditável, não é?

- Lá isso é. "Estima-se que pelo menos trinta por cento dos pais destas lésbicas e dos gays são, eles próprios, homossexuais no armário, contribuindo muitos deles, por esse facto, de forma negativa para a educação das crianças. A sua forma passiva e reprimida de viver a sua sexualidade traduz-se, amiúde, em conceitos negativos sobre a sua condição que afectam o pleno desenvolvimento dos seus filhos e filhas."

- E veja aqui: "A maioria dos pais hetero reprime ou contraria de alguma forma as tendências destas crianças, sugerindo desde uma tenra idade a sua inadequação perante a sociedade, com gravíssimas consequências para a sua auto-estima. Cerca de 80 por cento submete-os mesmo a tratamentos psicológicos e/ou psiquiátricos para os obrigar a mudar a sua forma de estar. Em alguns casos recorrem mesmo a internamentos forçados e, quando essa medida se revela inútil, são comuns as agressões físicas,  A expulsão do lar familiar é outra medida repressiva habitual durante a adolescência das lésbicas e dos gays." 

- Incrível...

- "Apenas uma minoria destes pais hetero apoia a orientação sexual dos seus filhos. Mesmo assim, na maioria dos casos as crianças e adolescentes são confrontadas com uma reacção de dor, tristeza ou preocupação por parte dos progenitores, sintomas 'resignados' de que a sua condição é claramente uma desvantagem em relação aos outros." 

- Que coisa! E olhe esta parte aqui: "A maioria das lésbicas e dos gays que passaram pela terapia 'correctiva' confessa ter sentido, pelo menos, terror, vergonha e culpa, durante as sessões de tratamento a que foram sujeitos. Na maioria dos casos, os profissionais de saúde limitavam-se a confirmar as noções negativas impostas pela família e a reafirmar todos os sentimentos de inadequação dos indivíduos, recorrendo por vezes a tácticas de autêntico terror para condicionar as crianças e adolescentes homossexuais."

- E com tanto cuidado que há hoje com as crianças e com a legislação para as proteger, não há mecanismos de controlo desses abusos cometidos por profissionais de saúde e famílias repressoras?

- Aparentemente, este tipo de abuso de poder não é uma prioridade para as autoridades: "O problema parece estar no facto de se considerar que estes casos afectam apenas uma minoria pouco expressiva da população. E uma vez que os graves efeitos destas péssimas práticas pedagógicas e psicológicas só se revelam em pleno muitos anos após a sua ocorrência, é fácil dissipar as causas entre muitos factores que entretanto se verificam na vida dos indivíduos. Muitas vezes, são os educadores dessas pessoas e os profissionais que os maltrataram a consubstanciar outras razões para as consequências dos seus abusos nas lésbicas e nos gays. Seria necessário implementar medidas oficiais de denúncia dessas práticas para que começassem a ser entendidas como crimes inaceitáveis contra o indivíduo."

- É isso mesmo! Não há nenhuma comissão das Nações Unidas para a protecção de jovens e menores homossexuais em risco?

- A menina é crente...

- Estou a falar a sério.

- Bem sei. Ouça esta parte, que também é interessante: "A maioria dos hetero criados por mães lésbicas e pais gay é, em contrapartida, educado com grande liberdade. A preocupação das mamãs e papás homossexuais com o que consideram injusto e discriminatório pode estar a formar uma nova geração de heteros conscientes e pouco dispostos a contemporizar com esta realidade."

- E não acha que eles, mesmo assim, serão uma minoria?

- Talvez não. Até porque hoje em dia, a norma já é outra. É rara a prima ou o primo que não tenha família ou amigos hetero. Agora até nós reparamos neles.

- É verdade. É apenas uma realidade ainda não assumida. Acha que também vai haver um armário hetero?

- Não me parece. Acho que já há é uma redoma hetero, em que eles guardam as chaves do armário. Leia esta parte: "A maioria dos estudos e estatísticas sobre lésbicas e gays refere apenas a percentagem de homossexuais que se assumem inteiramente. Não a maioria que, ainda condicionada pelos abusos hetero, continua a acreditar que é melhor mentir do que revelar a sua verdadeira orientação sexual."

- Mas é um gato escondido com o rabo de fora, não é?

- Claro. Porque depois não resistem a aparecer nos restaurantes, nas discotecas, nas festas e em todo o lado. A multidão dá-lhes força. Mas confessar, cara a cara com um investigador, para efeitos de estatística, continua a ser o "pecado" que vem desde a infância, com a gravação da voz do papá e da mamã muito pouco satisfeitos com as "brincadeiras" que a menina ou o menino tiveram.

- Ainda vão ser necessárias um par de gerações para erradicar o veneno.

- É verdade. E eu agora precisava que a menina me erradicasse aqui um veneninho que me está a roer por dentro...

- Está? Eu tenho ali dentro um remédio sensacional. Quer experimentar?

- Não pode ser aqui mesmo? É que já mal me aguento. Acho que estou a sucumbir ao tal veneno...

 

orgulhos participados

(a condutora designada a pedir indicações na berma da estrada para Mira)

 

- Para quem não queria ir a Orgulho nenhum, parece-me que a menina afinal sempre se divertiu em Mira, não foi?
- Por acaso foi. Só tenho pena que não façam discotecas e Orgulhos para não fumadores.
- Temos de fazer uma proposta para o ano que vem.
- Olhe que bela ideia: Orgulhos sem fumo. Quem quiser vá fumar para a varanda e depois entre. Será que nos ligam alguma?
- Não sei. Mas não é a menina que diz que se não abrirmos a boca ninguém nos ouve?
- Tem toda a razão. Vamos lá escrevinhar uma proposta e tentar que, para o ano, os Orgulhos sejam smoke free.
- E, já agora, por que não aproveitamos para organizar os Orgulhos Participados?
- Como assim?
- Este ano fomos aos Orgulhos do Porto e de Mira, não foi? Falhámos o de Lisboa, mas não se pode estar em todas...
- Com muita pena nossa, que já tínhamos compromissos para esse dia.
- Pois é. mas para o próximo ano, podemos propor a todos os organizadores os Orgulhos Participados. Ou seja, cada organização trata de se preparar para participar nos outros Orgulhos. Cada um escolhe um tema e organiza o seu grupo de forma a aparecer e distinguir-se na marcha.
- Como nós queremos fazer com o Elas a Norte?
- Justamente. O Elas a Norte vai juntar forças e fazer os possíveis por ir ao Orgulho de Lisboa, ao do Porto e ao de Mira. E tal como nós, que resolvemos ter esta iniciativa, outras pessoas poderiam começar a pensar no mesmo e, para o ano, juntar um grupo de amigos e de amigas e participar num ou em todos os Orgulhos, com um tema que lhes seja particularmente caro.
- Olha que ideia mais positiva a sua... Vamos já contactar toda a gente. Afinal, cada Orgulho é uma festa e podemos participar nela como acharmos mais agradável.
- É uma forma de mostrarmos a nossa forma de estar. Não há gente que leve amigos e políticos aos Orgulhos?
- Claro. Até podem escolher um padrinho famoso e organizar-se de acordo com isso. Ou pegar nos pais e nas famílias e formar o grupo de apoio ao Orgulho da Prima Maria, por exemplo.
- Há imensas hipóteses. Só dependem da criatividade de cada uma, ou de cada um. Mas lá que era giro haver bastante gente a fazer isso, era.
- Não precisa de dizer mais nada para me convencer. Vou já mandar uma mão cheia de e-mails para toda a gente.
- Mande, mande, que depois vai precisar de uma mão cheia de vontade para me ajudar a organizar o meu grupo.
- Que grupo? A menina e eu já somos grupo que chegue, não acha?
- Não se ponha já para aí com a ciumeira. Vá, fale lá com as vizinhas, se isso a faz sentir mais apoiada.
- Apoiadíssima. E qual vai ser o nosso tema?
- Isso são outros trezentos. E é coisa para se discutir em grupo, na próxima reunião do Elas a Norte.
- Ora bem...

eu vou, eu vou, ao mira pride eu vou...

- Onde é que a menina vai, assim aperaltada?
- Vou para o Mira Pride.
- Não esteve ainda o fim-de-semana passado no Porto Pride?
- Estive. Mas ainda há este e eu não quero deixar de participar.
- E a seguir, para onde é que vai orgulhar-se?
- Para lado nenhum, espero, que ando absolutamente estourada com todas estas festas.
- Bem pode andar. Não há fome que não dê em fartura. Ainda aqui há meia dúzia de anos revirávamos tudo para arranjar quem fosse ao Pride em Lisboa. Agora, dá-se um passo e descobre-se uma festa nova.
- Não me diga que agora deu em criticar-nos pelo excesso, como os que ralham connosco porque não precisamos de nos exibir e que está tudo bem se tirarmos os excessos?
- Não, pelo amor da santa. Vá lá ao Mira Pride e com a minha bênção...
- Não quer vir?
- Nem pensar. Vá a menina, que eu fico aqui a descansar as pernas em frente à têvê e sempre me protejo melhor dos calores em casa.
- A que calores se refere?
- A esses que a gente sente com as pikenas todas à nossa volta, de mãos dadas, a passar-nos pela esquerda e pela direita, a agitar bandeiras e cartazes, “olha as cores do arco-íris, é pró menino e prá menina”, mais as trocas de números e as combinações para a noite. Ai, que até fico mareada...
- Veja lá se quer que eu a atire pela borda fora para lhe passarem os calores...
- Não seja mazinha... Se ainda agora lhe confessei que não vou e por que razão...  O que é que a menina pode ter contra mim? Afinal, quem é que vai para o Pride com um top com coraçõezinhos lilases agarradinhos uns aos outros?
- Mas eu não sofro de calores, como certas descaradas que eu cá sei.
- Nem podia, minha querida, nem podia. Como é que se pode ter calor com roupa que mais parece do recato da praia do que da agitação manifestante?
- Está a dizer que vou muito despida?
- De forma alguma, menina, de forma alguma. Só estou a constatar o facto de que vai a contar com o calor humano da marcha.
- Ai os ciúmes...
- Se há coisa que não sou é ciumenta. Mas também não nasci jumenta...
- Está a insinuar que vou para lá pavonear-me para as outras?
- Insinuar? Eu? Não, nem pensar. É um simples aviso à navegação, meu amor. E já que falamos nisso, como não vou consigo, arranjei-lhe companhia.
- Não é preciso. Vou muito bem sozinha.
- Nem pensar, minha querida. Despache-se que elas devem estar a chegar.
- Elas? A quem se refere???
- Às nossas queridas amigas do terceiro andar.  Nem precisa de levar o carro que elas dão-lhe boleia.
- As do terceiro andar? Aquelas com quem a menina não gosta nem de ser vista?
- Ai que hoje deu-lhe para a má-língua... São moças excelentes, companhias perfeitas para um Pride. Vá por mim que eu sei o que digo.
- Pois sabe. Vai com certeza fazer-se uma clareira de vários metros à minha volta, com esses dois cães de fila ao meu lado.
- Ai que desbocada... Até parece mal, começar a discriminar ainda antes de sair de casa. Afinal de contas, para que se dá ao trabalho de se manifestar? Não é para combater a discriminação?
- Eu dou-lhe a discriminação! Que grande lata...
- Depois, minha querida, depois, que são elas agora a tocar à campainha. Divirta-se...

orgulhosamente na tanga

 

- A menina vai ao Porto Pride este ano?

- Ainda não sei?

- Ainda não sabe? E a que propósito ainda não sabe? Tem uma agenda assim tão preenchida?

- Não é isso...

- Então o que é? Em Lisboa vai ao Pride e aqui nem por isso?

- Olhe, eu sou aqui do Porto, é o que é. É diferente?

- Está a querer dizer-me que as pessoas do Porto são diferentes das de Lisboa.

- Pois são?

- Porquê? São anti-pride?

- Eu não disse isso. A menina é que já está a pôr palavras na minha boca.

- Só estou a tentar perceber por que é que a menina não vai ao Pride.

- Porque eu sou daqui, entende? toda a gente me conhece.

- E essas pessoas que a menina conhece aqui do Porto vão ao Pride? Ou vão estar nas laterais para lhe atirar tomates podres especialmente a si?

- Que disparate. Claro que não.

- Então? O que se passa aqui no Porto que é tão diferente de Lisboa?

- Já lhe disse: as coisas aqui são diferentes.

- Eu sei que são diferentes. Mas só não percebo se essa diferença é a fovor ou contra as pessoas do Porto.

- Não é nada disso. Lá está a menina a complicar.

- Por acaso não estou. Só estou a pensar é que, se calhar, as pessoas do Porto se podem sentir discriminadas pelos homossexuais que têm medo de se manifestar no Porto. Até parece que vocês acham que as pessoas do Porto são todas uma espécie de criminosas que, se nos virem a marchar durante o Pride, vão atirar-se a nós e, de repente, deixar de ser quem são para se tranformarem em criminosos capazes de chacinar por ódio aos homossexuais.

- Credo, pque rematado disparate!

- Mas se é assim tão grande o disparate, qual é o seu problema em desfilar no Porto como desfila em Lisboa? Se acha que não há criminosos à espreita para nos atacar a todos durante o desfile, por que é que não vai à marcha?

- Porque aqui nunca houve essas coisas e as pessoas são diferentes, as pessoas são mais conservadoras e isto é um meio muito mais pequeno que no SUl.

- Ah, agora é também uma questão de estatísticas: no Norte somos mais pequenos e menos em tudo que no Sul, é isso?

- Ai, não se pode falar consigo...

- Claro que pode. Eu até estou a procurar entender: se as estatísticas mostram que a grande área metropolitana do Porto acolhe neste momento quase o mesmo número de pessoas que a áre a metropolitana de Lisboa, e se nós sosmos os primeiros a defender que pelo menos dez por cento da população é homossexual, bissexual e trangénera, não vejo onde é que o meio é mais pequeno. Só vejo, aliás, que nessas circunstâncias estamos todos em pé de igualdade.

- Mas as pessoas aqui são muito mais conservadoras.

- E em Lisboa não são? Sendo que a pessoa pode ser do PCP e muitíssimo conservadora no que diz respeito aos assuntos lgbt, não acha?

- Claro que acho.

- Então por que é que está a dizer que as pessoas aqui são mais conservadoras que em Lisboa? Nunca se fez nenhum estudo a sério sobre o conservadorismo das pessoas em relação à população lgbt...

- Adiante. Eu acho que aqui é diferente, já lhe disse. Não viu o que aconteceu o ano passado na marcha?

- O quê? Uma pessoa a gritar muito zangada porque havia uma parada lgbt a passar? Uma pessoa vai ser exemplo para o comportamento do Porto inteiro? Se fosse eu, ficava ofendida, a sério que ficava.

- Eu acho-lhe imensa graça... Diga-me lá então por que é que eu devo ir ao desfile.

- Primeiro, porque a menina já foi a Lisboa, ao desfile e, por isso, acho que sendo daqui, devia fazer o mesmo.

- Segundo?

- Porque acho sinceramente que se deve dar uma oportunidade para as pessoas do Porto mostrarem que, tal como Lisboa, sabem acolher todas as pessoas e todas a maneiras de estar. Estar à partida a chamar-lhes diferentes e menos abertas é uma forma de discriminação que não fica nada bem a pessoas como nós, que lutamos para acabar com as discriminações. Por isso, nem quero ouvir dizer mais nenhuma vez que as pessoas aqui não são assim ou assado. Há que dar-lhes oportunidade para mostrarem como são, realmente.

- Há uma terceira razão?

- Claro que há. A Parada Lgbt é uma festa e não conheço gente mais festiva que a do Norte. E porque acredito sinceramente que, quando conseguirmos cativar as pessoas da cidade e dos arredores para esta nossa festa, o Pride do Porto vai ser muitas vezes maior e mais animado do que o de Lisboa.

- E viva o Porto?

- Claro que sim. Viva o Porto e o Porto Pride!

- Vamos lá a essa festa então.

- Eu sabia que a menina não reistia a um bom apelo ao seu bairrismo nortenho. Vamos lá fazer com que esta cidade se vire do avesso na nossa festa!

 

elas a norte

 

- A menina foi ao encontro das primas em Braga?

- Acima ou abaixo de Braga?

- Não seja vulgar. Foi ou não foi?

- Fui, claro. As primas a Norte andam em grande actividade.

- E que tal foi?

- Muito agradável, lá em cima no Bom Jesus, em contacto com a Natureza e tudo. Um piquenique recheado de frutos silvestres...

- Lá está a menina a delirar.

- Não estou não. As primas do Norte estão tão afastadas de tudo que bem podem considerar-se frutos silvestres.

- Só se for por isso. E que grupo organizou o encontro?

- Encontro é um pouco de mais, porque aquilo foi mesmo um piquenique, em cima da mesa de pedra e com mantas lá pelo chão que, infelizmente, ninguém chegou a utilizar.

- Quer deixar-se de parvoíces?

- Está bem, está bem. Foi ao ar livre, no parque do Bom Jesus e, pasme, não foi um grupo que o organizou.

- Não?

- Não. Foi uma prima de Braga. Pegou num e-mail e anunciou a actividade. E foi um êxito, porque apareceram umas vinte primas, duas de Lisboa, imagine.

- Há que ter mais iniciativas dessas.

- Olhe que tem razão. Aquilo foi até às três da manhã, imagine, em amena cavaqueira e comezaina, que as primas do Norte adoram os petiscos e também gostam de um bom vinho.

- E que mais se passou?

- Houve conversa, muita conversa, até porque a muitas primas nunca tinham estado num encontro. Outras deixaram as famílias em casa e foram para lá.

- Famílias? Tipo filhos e marido?

- Isso mesmo. É que a Norte é diferente: as primas casam e têm famílias como as outras mulheres, porque isso são mais ou menos todas as opções que têm.

- E mesmo assim foram ao encontro?

- Foram e participaram em tudo, trocaram contactos e ao fim da tarde foram passear a cavalo, pelo monte, que nem Amazonas em pleno Bom Jesus.

- E acha que depois desse encontro alguma coisa mudou para elas?

- Para algumas, pelo menos. Sabe como é: umas ficam contentes só pelo facto de irem; outras começam a acreditar que realmente é possível mais alguma coisa; e algumas vão e sabem que há mais, mas nunca sairão do armário.

- E a menina, em que categoria se encaixa?

- Eu fiquei contente por ir e por perceber que, mesmo no Norte, alguém acredita que pode tomar a iniciativa e fazer alguma coisa. Percebeu-se que não é assim tão complicado organizar um encontro, desde que se queira, porque as primas aparecem, vindas de todo o lado. Isso não quer dizer, claro, que alguma coisa mude a Norte, onde muita coisa continua a passar-se como no século passado.

- Como assim?

- Dou-lhe um exemplo: um destes dias fui ao cabeleireiro e estava a dar a nova versão da 'Escrava Isaura'. Lembra-se da novela, que se passa no século XIX?

- Muito bem.

- Então, a dada altura, parou tudo a ver uma cena especialmente importante. E no fim alguém disse: 'Gosto disto porque é mesmo como na vida real!' Eu, claro, quis saber como é que podia ser 'a vida real', uma vez que estamos em 2007 e já vamos supostamente com dois séculos de avanço.

- E elas?

- Insistiram: 'Mas é a vida real. Isto é mesmo assim!' Pronto, fiquei sem argumentos. Se é assim no século XXI, igual ao século XIX, quem sou eu para dizer o contrário?

- De facto...

- É a vida real, a Norte...

lésbicas saídas de um livro

 

- A menina sabe o que é uma lésbica que até parece saída de um livro?

- Hã?

- O que é uma lésbica sa...

- Já ouvi da primeira vez, embora não tenha percebido de onde veio isso.

- Foi há bocado, na rua.

- O que aconteceu?

- Estavam as nossas vizinhas a conversar. E, ao passar, ouvi a dona Henriqueta a dizer que alguém «parece mesmo uma lésbica saída de um livro». A que se estaria ela a referir?

- Isso gostava eu de saber...

- Estariam a falar de nós?

- A que propósito? A menina já se esqueceu que connosco é a sua mana isto, a sua mana aquilo?

- Pois é. Aqui no prédio vivemos como duas irmãs.

- Claro. Duas mulheres a viverem juntas, só podem ser irmãs.

- Ou primas...

- Não seja mazinha...

- E então, em que ficamos? Que são lésbicas saídas de um livro?

- Sei lá. Andarão de texanas e esporas? Com tatuagens nas axilas?

- E que livros de lésbicas terão elas lido para se sairem com uma dessas?

- «O Preço do Sal» não foi, com certeza, que é demasiado 'literário'... Além disso, nem sei se ainda há exemplares no mercado. Tem a certeza que não há nenhuma novela mexicana a dar de tarde na têvê?

- Mexicana? Enlouqueceu? Aí as mulheres são todas submissas e traídas, ou umas pestes que morrem no fim. Não, não foi por aí.

- Bem, não estou a ver a dona Henriqueta a ler romances, quanto mais lésbicos...

- Vou buscar o último número das Selecções. Talvez tenha saído lá alguma coisa sobre lésbicas que nos tenha passado despercebida.

- Ensandeceu... Nas Selecções?!?

- Por que não? Já contam histórias de prostitutas e de pessoas que venceram a batalha contra as drogas. Bem podem ter mastigado e compactado uma história de lésbicas.

- Nem em sonhos! Vai ver que foi alguma coisa que lhe contou a filha, aquela que adormeceu nas escadas na Queima das Fitas.

- A Francisquinha? Não seja tola. A miúda é praticamente uma santa. Um copito a mais na festa foi o máximo que lhe aconteceu na vida e, provavelmente, tudo o que irá acontecer.

- Pois... Eu bem vejo os olhos que ela lhe deita.

- A Francisquinha? Coitada da garota... Cora que nem um pimentão sempre que se cruza connosco.

- Bem, adiante. Volte lá a essa coisa do parecer uma lésbica saída de um livro.

- Será por ser lésbica? Será tão estranho como um livro?

- Olha... Não é que tem lógica? Até deve ser insultuoso, do ponto de vista da dona Henriqueta e da amiga.

- Sua lésbica! Até parece saída de um livro! Que tal soa?

- Um verdadeiro horror. Até arrepia...

- Ora aí tem. É um insulto.

- E nós aqui a darmos voltas à cabeça a pensar que elas se estavam a referir a nós...

- Pois é. Afinal é apenas um insulto: saída de um livro! Lésbica!

- Que maravilha. Está desvendado mais um caso da dona Henriqueta e das suas vizinhas.

- Pronto. Vou voltar às minhas leituras. Posso?

- Pode claro. Vou só ali abaixo à dona Henriqueta dizer-lhe que a menina tem um livro nas mãos...

- Isso é uma ameaça? Olhe que eu tenho cá uma ideia de outras coisas para ter nas mãos...

 

sofazando

 

- A menina não se importa de me dizer quando é que vai sair desse malfadado sofá?

- Porquê? Estou a estorvar?

- A minha paciência, e muito. Não tem vergonha na cara? Nem sequer responde às mensagens que lhe deixam?

- A vergonha nunca foi o meu forte, como sabe. Já a preguiça, é outra conversa.

- Não percebo como pode estar com preguiça à tanto tempo.

- Estou a fazer cera.

- Isso vejo eu!

- Não me percebeu. Sabe de onde vem a expressão?

- Já me disse: das abelhas nas colmeias.

- Ora aí está. Estou a fazer cera, como as abelhas que parecem não estar a fazer nada mas na verdade estão a preparar a colmeia para um novo enxame.

- No seu caso espero que seja um enxame de ideias.

- Acertou. Mas elas não surgem do nada, sabe? Há imensa coisa a acontecer e é preciso ligar as coisas para tentar compreender a forma como elas nos afectam.

- E o que é que está a afectá-la desta vez?

- Nada em especial. Mas há algumas coisas que me passam pela cabeça.

- Dê-me um exemplo.

- Lembra-se da ópera que fomos ver ao Coliseu?

- «La Traviata»?

- Essa mesmo. A minha preferida, embora o espectáculo tenha sido um terror.

- Sim, foi bastante mau. Mas a que propósito vem isso?

- É o exemplo que me pediu de algumas coisas em que vou pensando aqui no sofá.

- Estou a segui-la…

- A ópera é assim como a história da Violeta, da Traviata. O amor dela está condenado à partida. Está comprometida e quando conhece Alfredo, o que lhe retira qualquer hipótese à partida. Depois, quando já há um relacionamento entre eles e parece que alguma coisa pode acontecer, desmaia. Um aviso do que pode ser o seu fim e o desfecho da relação.

- Uma bela tragédia, à boa maneira da ópera.

- Isso mesmo. Mas não fica por aí. À medida que o amor deles cresce, sucedem-se as intrigas e os mal-entendidos, até que ela opta para se afastar, sacrificando o seu amor por Alfredo. Quando este finalmente toma uma decisão, é tarde demais. Ela morre. Mas ele está salvo, pelo amor dela.

- Um amor impossível. Muito romântico.

- Aí está: romântico é igual a amor impossível. Faz ideia de quanto essa noção, tão enraizada dentro de nós, afecta as relações entre as pessoas? Afinal, o romântico são os amores impossíveis…

- Ai, nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

- É verdade. Mas a ópera é uma sublimação da realidade, ou do que achamos que pode ser uma realidade plausível. Agora pense em todos os amores impossíveis cantados nas óperas. A que conclusão chega?

- Sei lá! Não sou eu que estou no sofá, a pensar nessas coisas todas… Debite lá a sua conclusão.

- A conclusão é que a ópera é mesmo um espelho da realidade. Dos amores hetero. Tanta desgraça e tanto desencontro só mesmo numa relação hetero. Se as heroínas fossem duas mulheres a história era outra.

- Como por exemplo?

- Entravam as duas para um convento e aí passariam o resto das suas vidas, em reclusão, para o resto das suas vidas, mas com imenso tempo para sentir o seu amor.

- Isso e o armário são uma e a mesma versão, não acha?

- Bem… No armário há menos espaço, por isso calculo que a versão conventual garanta horizontes mais latos, até porque…

- Até porque nessa versão sempre havia um Don Juan de saias, é isso?

- É uma interpretação livre, mas também muito perto da realidade.

- Salte já desse sofá que eu tenho uma ou duas coisas para lhe mostrar sobre a realidade…